Roberto Carlos e Ivete Sangalo

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Velho




Parado e atento à raiva do silêncio
De um relógio partido e gasto pelo tempo
Estava um velho sentado no banco de um jardim
A recordar fragmentos do passado

Na telefonia tocava uma velha canção
E um jovem cantor falava na solidão
Que sabes tu do canto de estar só assim
Só e abandonado como o velho do jardim?

O olhar triste e cansado procurando alguém
E a gente passa ao seu lado a olhá-lo com desdém
Sabes eu acho que todos fogem de ti prá não ver
A imagem da solidão que irão viver
Quando forem como tu
Um velho sentado num jardim

Passam os dias e sentes que és um perdedor
Já não consegues saber o que tem ou não valor
O teu caminho parece estar mesmo a chegar ao fim
Para dares lugar a outro no teu banco do jardim

O olhar triste e cansado procurando alguém
E a gente passa ao seu lado a olhá-lo com desdém
Sabes eu acho que todos fogem de ti prá não ver
A imagem da solidão que irão viver
Quando forem como tu
Um resto de tudo o que existiu
Quando forem como tu
Um velho sentado num jardim

Autoria de Mafalda Veiga -- jovem cantora portuguesa

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Amor Autoritário


Não é incomum encontrarmos pessoas autoritárias, elas podem estar em casa, no trabalho, na rua, podem fazer parte diariamente da nossa vida como podem ser rápidos encontros, mas estão ao nosso redor e é preciso saber driblá-las ou ao menos compreendê-las para tornar a convivência mais fácil.

No trabalho, a personalidade autoritária pode ser vista tanto na figura do chefe quanto em um colega de equipe. Não são fáceis de conviver, pois são pessoas com muita dificuldade em ouvir, aceitar ou serem contrariados. Quanto mais poder ele tiver, mais uso fará de sua característica, mas mesmo quando se trata apenas de um companheiro de equipe ele pode dificultar e muito o andamento agradável do dia, criando sempre um estado de tensão para aqueles que estão ao seu redor.

Na maioria das vezes, são pessoas que não percebem seu próprio funcionamento e muitas vezes possuem pouca clareza para perceber quando eles mesmos dificultam a situação. Quando um autoritário reconhece essa sua característica ele pode aprender a fazer um uso positivo e equilibrado. Um chefe autoritário, por exemplo, gera insegurança em seus subordinados, fazendo com que se sintam incompetentes, ainda que tenham feito o seu melhor. Já um colega autoritário dificulta o entrosamento da equipe, gera conflitos.

No amor também encontramos pessoas com essa personalidade, seja na relação familiar, como um pai ou uma mãe por exemplo, seja no casamento, como o marido ou a esposa. Como nos interessa mais falar sobre relacionamentos, vamos pensar um pouco sobre quando essa questão envolve um casal.

Com frequência vimos (seja por experiência própria, seja na história de um amigo) casais onde um da dupla sofre de grande autoritarismo. Geralmente são casais onde o que um quer, acha e fala precisa sempre sobressair ao que o companheiro desejaria, acharia ou falaria. O espaço da dupla parece ser pequeno para esse ser autoritário, como se apenas houvesse espaço para um e não para dois, apenas houvesse espaço para uma mente, um coração, uma personalidade, nunca para dois. Viver com alguém assim é difícil já que pessoas com esse traço possuem um enorme tendência a desconsiderar o que importa para outro, o que o outro necessita. Suas necessidades costumam vir em primeiro plano e poucas vezes é generoso.

Vejo casais que conseguem conviver apesar de todo esse cenário, mas apenas aquele onde o outro é de fato alguém sem muitas necessidades, mais passivo, com pouca personalidade, sem muita opinião, ao contrário, precisa de um outro que o preencha, dite seu rumo e faça escolhas por ele. Nesse caso a dupla caminha muito bem.

Felizmente poucas pessoas são assim, a grande maioria sabe o que quer, sabe se posicionar, tem personalidade. São entretanto, os que mais sofrem quando amam um companheiro autoritário, pois vivem mais conflitos e dificuldades ao se relacionar com este companheiro.

O autoritário não se percebe assim, não reconhece em si essa característica, acredita que seja natural que o mundo siga seus desejos e suas regras e briga com quem os aponta o contrário. As bases para um funcionamento assim são diversas, começam na infância, se sedimentam na adolescência e seguem adiante na vida adulta. São pessoas com um funcionamento quase infantil, onde não há espaço para um outro que seja diferente dele, o diferente é difícil de ser aceito, quase um invasor. Não agem por mal, não são pessoas más, não possuem a intenção de chatear, não são conscientes desse traço da personalidade, mas são difíceis de conviver ainda que tenham qualidades.

O curioso do autoritário é que no fundo dele repousa geralmente uma "criança" insegura e assustada com o mundo. Fazem o outro se sentir desqualificado, frágil ou impotente quando na realidade são eles mesmos que sentem tudo isso, são eles as crianças assustadas apesar de não terem consciência dessa condição. É um paradoxo, parece estranha essa contradição, mas é a realidade. Fazem o outro vivenciar o que eles mesmos sentem e assim se sentem mais seguros, com controle sobre o mundo, sobre as pessoas. As tornando frágeis eles podem se sentir firmes. São pessoas onde na verdade o "poder" não é uma conquista legítima, pois uma pessoa com real poder não precisa desvalorizar aqueles ao seu redor ao contrário as fortalece para que possam juntos construir ainda mais, para o aquele que tem confiança em si o outro não representa nenhuma ameaça. Os autoritários são pessoas para quem o poder surgiu de forma "reativa", é uma defesa contra sua própria insegurança, seu próprio medo de desmoronar e enfraquecer o outro o faz se sentir mais forte, mais seguro. Uma solidez geralmente com pouca sustentação e que costuma trazer prejuízos em muitos outros aspectos da vida.

Não existe uma regra para se conviver com alguém assim, é preciso mais maturidade e sabedoria, é preciso um certo desprendimento, jogo de cintura. Quando se trata de um colega de trabalho, talvez seja mais fácil agir com uma certa flexibilidade, mas sei o quanto é mais difícil quando se tem um relacionamento com alguém com essa característica, quando o que se tem em jogo é o amor, seu próprio sentimento e bem estar.

No geral, assim como existe o autoritário, existem também outras personalidades melhores ou piores dependendo da dupla que está formada. Todos terão defeitos e todos terão qualidades, certas características se dosadas com qualidades podem ser amenizadas e possíveis de se alcançar uma maravilhosa relação.

De toda forma compreender um pouco sobre as diferentes personalidades ajuda na hora da convivência, ajuda a refletir e a administrar melhor as diferenças em cena. Ajuda a fazer escolhas com mais clareza da situação que se vive. Escolhas saudáveis são fundamentais.


Este artigo foi escrito por:
Dra. Juliana Amaral

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Percepção de solidão




Uma mulher entra no cinema, sozinha. Acomoda-se na última fila. Desliga o celular e espera o início do filme. Enquanto isso, outra mulher entra na mesma sala e se acomoda na quinta fila, sozinha também. O filme começa.

Charada: qual das duas está mais sozinha?

Só uma delas está realmente sozinha: a que não tem um amor, a que não está com a vida preenchida de afetos. Já a outra foi ao cinema sozinha, mas não está só, mesmo numa situação idêntica a da outra mulher. Ela tem uma família, ela tem alguém, ela tem um álibi.

Muitas mulheres já viveram isso - e homens também. Você viaja sozinha, almoça sozinha em restaurantes, mas não se sente só porque é apenas uma contingência do momento - há alguém a sua espera em casa. Esta retaguarda alivia a sensação de solidão. Você está sozinha, não é sozinha.

Então de repente você perde seu amor e sua sensação de solidão muda completamente. Você pode continuar fazendo tudo o que fazia antes - sozinha - mas agora a solidão pesará como nunca pesou. Agora ela não é mais uma opção, é um fardo.

Isso não é nenhuma raridade, acontece às pencas. Nossa percepção de solidão infelizmente ainda depende do nosso status social. Se você tem alguém, você encara a vida sem preconceitos, você expõe-se sem se preocupar com o que pensam os outros, você lida com sua solidão com maturidade e bom humor. No entanto, se você carrega o estigma de solitária, sua solidão triplicará de tamanho, ela não será algo fácil de levar, como uma bolsa. Ela será uma cruz de chumbo. É como se todos pudessem enxergar as ausências que você carrega, como se todos apontassem em sua direção: ela está sozinha no cinema por falta de companhia! Por que ninguém aponta para a outra, que está igualmente sozinha?

Porque ninguém está, de fato, apontando para nenhuma das duas. Quem aponta somos nós mesmos, para nosso próprio umbigo. Somos nós que nos cobramos, somos nós que nos julgamos. Ninguém está sozinho quando curte a própria companhia, porém somos reféns das convenções, e quando estamos sós, nossa solidão parece piscar uma luz vermelha chamando a atenção de todos. Relaxe. A solidão é invisível. Só é percebida por dentro.

Martha Medeiros

Uma Mulher Chamada Guitarra




Vinicius de Moraes


UM DIA, casualmente, eu disse a um amigo que a guitarra, ou violão, era "a música em forma de mulher". A frase o encantou e ele a andou espalhando como se ela constituísse o que os franceses chamam um mot d'esprit. Pesa-me ponderar que ela não quer ser nada disso; é, melhor, a pura verdade dos fatos.

0 violão é não só a música (com todas as suas possibilidades orquestrais latentes) em forma de mulher, como, de todos os instrumentos musicais que se inspiram na forma feminina — viola, violino, bandolim, violoncelo, contrabaixo — o único que representa a mulher ideal: nem grande, nem pequena; de pescoço alongado, ombros redondos e suaves, cintura fina e ancas plenas; cultivada, mas sem jactância; relutante em exibir-se, a não ser pela mão daquele a quem ama; atenta e obediente ao seu amado, mas sem perda de caráter e dignidade; e, na intimidade, terna, sábia e apaixonada. Há mulheres-violino, mulheres-violoncelo e até mulheres-contrabaixo.

Mas como recusam-se a estabelecer aquela íntima relação que o violão oferece; como negam-se a se deixar cantar, preferindo tornar-se objeto de solos ou partes orquestrais; como respondem mal ao contato dos dedos para se deixar vibrar, em benefício de agentes excitantes como arcos e palhetas, serão sempre preteridas, no final, pelas mulheres-violão, que um homem pode, sempre que quer, ter carinhosamente em seus braços e com ela passar horas de maravilhoso isolamento, sem necessidade, seja de tê-la em posições pouco cristãs, como acontece com os violoncelos, seja de estar obrigatoriamente de pé diante delas, como se dá com os contrabaixos.

Mesmo uma mulher-bandolim (vale dizer: um bandolim), se não encontrar um Jacob pela frente, está roubada. Sua voz é por demais estrídula para que se a suporte além de meia hora. E é nisso que a guitarra, ou violão (vale dizer: a mulher-violão), leva todas as vantagens. Nas mãos de um Segovia, de um Barrios, de um Sanz de la Mazza, de um Bonfá, de um Baden Powell, pode brilhar tão bem em sociedade quanto um violino nas mãos de um Oistrakh ou um violoncelo nas mãos de um Casals. Enquanto que aqueles instrumentos dificilmente poderão atingir a pungência ou a bossa peculiares que um violão pode ter, quer tocado canhestramente por um Jayme Ovalle ou um Manuel Bandeira, quer "passado na cara" por um João Gilberto ou mesmo o crioulo Zé-com-Fome, da Favela do Esqueleto.

Divino, delicioso instrumento que se casa tão bem com o amor e tudo o que, nos instantes mais belos da natureza, induz ao maravilhoso abandono! E não é à toa que um dos seus mais antigos ascendentes se chama viola d'amore, como a prenunciar o doce fenômeno de tantos corações diariamente feridos pelo melodioso acento de suas cordas... Até na maneira de ser tocado — contra o peito — lembra a mulher que se aninha nos braços do seu amado e, sem dizer-lhe nada, parece suplicar com beijos e carinhos que ele a tome toda, faça-a vibrar no mais fundo de si mesma, e a ame acima de tudo, pois do contrário ela não poderá ser nunca totalmente sua.

Ponha-se num céu alto uma Lua tranqüila. Pede ela um contrabaixo? Nunca! Um violoncelo? Talvez, mas só se por trás dele houvesse um Casals. Um bandolim? Nem por sombra! Um bandolim, com seus tremolos, lhe perturbaria o luminoso êxtase. E o que pede então (direis) uma Lua tranqüila num céu alto? E eu vos responderei; um violão. Pois dentre os instrumentos musicais criados pela mão do homem, só o violão é capaz de ouvir e de entender a Lua.

Vinícius de Moraes